
"COMO DESTRUIR UMA ILHA EM VINTE LIÇÕES”
Por Fábio Brüggemann (publicado no Diário Catarinense, out/2006)
"Existem pessoas que constróem cidades, outros preferem destruí-las. Como em breve haverá um novo plano diretor, vai aqui minha sugestão para facilitar a destruição, mesmo que já tenha iniciado o processo.
1) Habite uma ilha, mas de costas para o mar. Afinal, você ficará cego de tanto vê-lo, que continuar olhando para ele será um suplício. Depois de alguns anos, "se faça de moderno" e transforme toda a orla urbana – inclusive a das lagoas - em estacionamentos para automóveis, e vá tomar café nos postos de gasolina.
2) Esqueça de forma solene a cultura produzida pelos moradores, a começar por destruir todo seu patrimônio material e imaterial, colocando abaixo todo o casario histórico (para quê, né, manter casa velha?) e construa prédios funcionais, e modernos" . Deixe que intelectuais, arquitetos, urbanistas e especialistas falem o que quiserem, eles costumam não entender nada disso.
3) Como essa gente faz muita porcaria, construa um imenso merdário bem na entrada da cidade, para que turistas e a própria população sinta todos os dias o cheiro daquilo que sabem fazer muito bem.
4) Depois encha a cidade de estátuas extemporâneas e esquisitas, como aquela em homenagem à Polícia Militar, carinhosamente apelidada de "No meu não", e, ao lado do merdário, finque bandeiras enormes.
5) Gaste uma fortuna na construção de um complexo - mas complexo mesmo - de terminais urbanos que fazem a viagem ficar mais lenta do que antes da construção deles. Não dê ouvidos àqueles malas que insistem em achar que investir em transporte marítimo, só porque se habita uma ilha, dará resultado.
6) Aterre todas as orlas, pelo mesmo motivo já citado. Afinal, é muito mar que tem por aí. Precisamos mesmo é de terra e espaços para os automóveis, razão essencial de nossas vidas.
7) Depois de aterrar orlas e baías, convide um dos urbanistas mais importantes do mundo, como Burle Marx, para que faça um projeto de urbanização do aterro. Quando estiver tudo pronto, destrua tudo e coloque ônibus, muitos ônibus, para fazer "não" funcionar aquele complexo citado acima. Para acabar de vez, construa um Centro de Eventos cuja arquitetura, além de tapar a pouca vista do mar, é bem parecida com a do merdário citado antes.
8) Asfalte todas as ruas do centro histórico. Afinal, o turismo depende apenas de bundas, sol e areia, fazendo, ainda, ampliar a velocidade dos carros, aumentando a poluição sonora e os acidentes. Ninguém vai à Europa para ver sua cultura e sua história, ou seus museus. Essa gente gosta mesmo é de ver carros, muitos carros.
9) reconstrua apenas os pilares do Mítico Miramar, pinte de cor de rosa e deixe inacabado. Afinal, aqui também tem construção que já é ruína.
10) Construa centros de compras (e os chame colonizadamente de shopping, pois somos ingleses ao que parece) bem em cima dos mangues. Ninguém precisa daquele ecossistema cheio de garças, carangueijos e que de nada serve na hora de comprar roupinhas de 200 reais, vindas do Bom Retiro, em São Paulo, por apenas 25.
11) Construa casas penduradas nas enconstas das lagoas e dos morros próximos ao mar e
desmate tudo em volta, para que tenha mais visão da natureza, antes que outro construa a sua também e desmate e tire a sua visão privilegiada.
12) Desmate, aterre e negocie com a Câmara de Vereadores a ocupação de áreas de preservação permanente por empreendimentos que privatizam a paisagem e os acessos à praia.
13) Evite o incentivo aos esportes adequados ao clima e geografia, tais como o vôo livre, a pesca, a vela, etc, e permita a ocupação de áreas de abastecimento de lençol freático por empreendimentos imobiliários voltados a esportes praticados há anos na Ilha e adorados pelos seus habitantes, como o golfe, por exemplo.
14) Como a Ilha dos Aterros já tem parques demais, doe os parques municipais de preservação para a iniciativa privada explorar os recursos naturais a serem protegidos e as áreas de terra para especulação imobiliária, assim como o Parque Sapiens e o Parque do Rio Vermelho.
15) Ignore os argumentos de técnicos e ambientalistas que só querem impedir o progresso da cidade e utilize as estruturas de instituições públicas para persegui-los até que abram mão das bandeiras preservacionistas e se mudem de cidade e Estado.
16) Construa novos e luxuosos prédios, cada vez mais perto do
mar, sem saber pra onde vai o esgoto, venda pra milionários de qualquer lugar do mundo, e depois coloque a culpa nos que vêm de fora pela ocupação desenfreada.
17) Deteste quem pensa um pouco no futuro e que - mesmo ciente de que um dia vai morrer - acha que seus filhos e netos merecem uma ilha um pouco melhor.
18) Seja moderno e diga de boca cheia Ecochato. É muito chique ser contra os ecochatos. Prefira ser ecoburro, que é também muito moderninho.
19) Asfalte ruas que não têm nem nome ainda, nem esgoto. Afinal, o que não aparece não dá
voto.
20) Vá embora e não lute contra."
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O autor deste texto, Fábio Brüggemann, foi exonerado de um cargo na Fundação Catarinense de Cultura porque criticou o prefeito e o governador na coluna no Diário Catarinense.

7 comentários:
Gostei foi de ler o manifesto dele no "Tô Puto". Esse eu desconhecia.
Abraço.
bem, muito bem, só nao entendi direito o que é o "merdário"
;)
É uma estação de tratamento de esgoto, construída logo que se adentra a Ilha de Santa Catarina.
Uma vergonha..
E é por isso que prefiro mostrar o mangue sujo e dizer que é sujo... :)
Claro que quando mostro a conservação eu também a enalteço maaaas... tava cada vez mais dificil encontrar exemplos disso na ilha :)
De cabeça agora, não lembro de nenhum lugar...
Eu encontrei um francês num jogo de sinuca na Trindade que me falou que o "merdário" não funciona mais. Ele estava aqui devido ao mercado de "créditos de carbono", instalando algum mecanismo de reaproveitamento da energia do gás metano, algo assim.
Um detalhe é que a empresa estrangeira só lucra no mercado de carbono se a implentação que eles vendem não é oferecida pelo governo local. Então eles têm a garantia do governo brasileiro que nós nunca vamos investir em preservação. Dessa forma garantimos os lucros deles.
Ah, faz sentido que um sujeito que tem um cargo comissionado e portanto político, seja exonerado ao fazer críticas a quem o colocou lá.
Oi Lina, legal teu blogue, e obrigado por tanto crédito. Só pra esclarecer, não critiquei o prefeito, apenas o governador, no filme "matou o cinema e foi o governador". Como os dois eram aliados políticos, o governador pediu minha cabeça, e o prefeito deu de bandeja. Passado quase um ano do episódio, acho que foi a melhor coisa que eles fizeram, porque não tenho perfil mesmo de "comissionado". Beijo.
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